Os Versos de um Poeta do Laboratório
São Paulo, 27 de outubro de 2000
Paixão e ódio são os dois sentimentos que o biólogo evolucionista Richard Dawkins, nascido em Nairóbi em 1941, tem despertado em sua carreira científica e de divulgador da ciência. Alguns o consideram um darwinista extremado, de visão reducionista intransigente e dogmática, outros, um defensor da ciência que não tolera falta de rigor no pensamento alheio – a teoria do equilíbrio pontuado do também biólogo evolucionista americano Stephen Jay Gould é um de seus alvos mais conhecidos. Na literatura científica também polemizou com seu primeiro livro, o best seller O Gene Egoísta (de 1976, reeditado pela Itatiaia em 1997), ao propor que cada gene luta pela sua sobrevivência e não em favor do organismo. Seu último livro, Desvendando o Arco-Íris (Companhia das Letras, 2000), acaba de sair no Brasil. Em entrevista de sua sala na Universidade de Oxford, Inglaterra, Dawkins fala da relação entre poesia e ciência (o tema principal do livro), das limitações da ciência, da pseudociência e da teoria do equilíbrio pontuado de Gould.
O senhor inicia o seu livro dizendo que vamos todos morrer, e isso nos faz sortudos, pois a maioria das pessoas nunca vai morrer, já que nunca nascerá. Por que é tão difícil nascer?
Não é difícil nascer. É como ganhar na loteria. Alguém tem de ser o vence-dor. Somos todos vencedores da loteria por definição, pois estamos aqui.
Para o senhor a ciência inspira a poesia?
Muitos poetas, durante muito tempo, não perceberam a rica fonte de inspiração oferecida pela ciência. Cientistas transformam o modo como pensamos o universo. Não é o universo sem palavras um tema que vale a pena? Por que um poeta deve celebrar somente pessoas e não o lento movimento das forças naturais que as fazem? (John) Keats reclamou que Newton destruiu a poesia do arco-íris ao explicá-lo. De forma geral, para um jovem poeta romântico, a ciência era a estraga-prazer. Mas mistérios não perdem sua poesia quando resolvidos. Pelo contrário, a solução freqüentemente se mostra mais bonita que o problema e, de qualquer forma, quando você resolve um mistério, cria outro. Afirmar que a ciência inspira a poesia é um dos propósitos desse livro.
Mas ciência é arte?
Quando contemplo galáxias, Teoria Quântica, evolução ou tempo geológico acho que sou movido de uma forma que um poeta iria reconhecer. Isso não quer dizer que eu escreva poesia. Não sou capaz, mas acho que a grande ciência é muito semelhante à grande arte. E será mais apreciada se mais pessoas a virem como poesia, arte ou música.
O senhor diz que todas as nossas percepções do mundo são um tipo de realidade virtual restrita, construída dentro do cérebro. Se vivemos em um mundo de realidade virtual, como podemos, como cientistas, estudar o mundo real?
Acho que a ênfase deveria ser dada à palavra restrita. Na sua questão há um tipo de realidade virtual restrita construída no cérebro. Essa restrição é muito importante, pois é restrita a um sonho constante vindo do mundo real. Não é que vivemos em um mundo de fantasia construído totalmente pela imaginação. Ele é construído, regulado, modificado pelas informações vindas dos sentidos. Existe uma relação entre a realidade lá fora e a nossa. Foi sugerido que esse conceito é um tipo de hipótese científica. Quando olho e vejo o que penso ser uma árvore do lado de fora da minha janela, construo uma realidade virtual da árvore na minha cabeça. O que é uma hipótese de que ela é uma árvore, mas como toda boa hipótese científica ela é constantemente testada. Essas informações estão vindo a todo momento dos meus olhos. Se a hipótese da árvore estiver errada, meu cérebro vai rejeitá-la e não mais a verei como uma árvore.
Os governos fazem leis para proteger seus cidadãos contra produtos que dizem fazer mais do que fazem, mas toleram a pseudociência. No Brasil, por exemplo, nos últimos dias do ano astrólogos dizem o que espera o país no ano seguinte. Como o senhor vê essa incongruência?
Gostaria de ver o governo fazer isso. Podemos ver esse tipo de atitude ainda mais claramente com remédios. O fabricante não pode dizer que o remédio vai curar dor de cabeça a não ser que isso seja provado. Mas no caso de um remédio homeopático ou outro não-ortodoxo, o fabricante pode alegar qualquer coisa. É competição injusta, pois quando as pessoas vão à farmácia comprar pílulas para dor de cabeça, elas ficam frente a frente com dois tipos de pílulas. Gostaria de ver isso parar, de ver leis nas quais todos os remédios fossem submetidos aos mesmos procedimentos. Mas suspeito que os homeopáticos não passariam no teste duplo cego (em que se dá para metade de um grupo o medicamento a ser testado, enquanto a outra metade toma placebo, sem que nenhum dos grupos saiba quem tomou o quê).
O senhor é o primeiro Professor Charles Simonyi para o Entendimento Público da Ciência de Oxford (Professor for the Public Understanding of Science) e tem dado palestras em todo o mundo sobre ciência. Como está o nível de conhecimento científico das pessoas?
Suponho que dependa do país. Nunca visitei o Brasil, para minha tristeza. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há muito entendimento errôneo. Pesquisas feitas na Inglaterra mostram que grande parcela da população acredita que o Sol gira em torno da Terra, que os humanos viveram na mesma época dos dinossauros, que antibióticos podem matar vírus. Algo como trinta por cento ou mais da população acredita em conceitos absolutamente errados.
Mas por que é tão difícil entender a ciência?
Não é somente dificuldade. Há também uma grande inabilidade por parte das pessoas em lidar com probabilidades. A grande preocupação dos artigos sobre ciência na Inglaterra é o risco. As pessoas se preocupam com os orga-nismos geneticamente modificados que elas pensam que podem contaminá-las. Ou sobre alguma doença que pode vir do oeste da África e contaminar todos os Estados Unidos. Mas elas não percebem que fumar cigarro é um risco muito maior. Acredito que as pessoas não foram ensinadas a pensar sobre probabilidades.
A visão cética do mundo tem sido criticada como um tipo de dogmatismo. Como o senhor vê isso?
Existe esse perigo e devemos estar atentos a ele. O importante é não rejeitar automaticamente nenhuma idéia nova, mas examinar crítica e cuidadosamente as evidências. É verdade que muitas das mais importantes idéias modernas começaram como idéias não-ortodoxas. Isso leva, conseqüentemente, à idéia errônea de que todas as idéias vão um dia se mostrar corretas. A grande dificuldade é distinguir qual. E a única forma de fazer isso é olhar as evidências. Eu nunca rejeitaria automaticamente uma idéia nova.
Desde Newton, as leis da ciência têm nos mostrado que a natureza se comporta de forma contra-intuitiva. O senhor acha que a mente humana está preparada para lidar com o conhecimento científico como a física quântica?
A física quântica é muito difícil para a mente humana. Não somente para pessoas não treinadas em física como eu, mas também físicos teóricos do primeiro time acham difícil visualizar o que acontece no mundo quântico. Eles podem visualizá-lo matematicamente, todavia muitos acham difícil fazê-lo ter sentido. Há limitações que podem ser entendidas nos termos da discussão que estávamos tendo, limitações nos tipos de modelos de construções do mundo que a mente é capaz de fazer. A mente pode construir somente um número limitado de modelos em relação aos modelos que teve de construir no nosso passado ancestral. Coisas que a teoria quântica demanda, como uma partícula estar em dois lugares ao mesmo tempo, não é algo que nosso cérebro seja capaz de imaginar.
Mas e as outras áreas da ciência? O senhor acha que o nosso cérebro é equipado para lidar com elas?
Acho que a Teoria da Relatividade não é tão difícil quanto a Teoria Quântica. Mas as pessoas têm dificuldade em entender que a Terra se move, pois ela parece estar parada. Têm dificuldade em entender que, se você está de pé na Austrália, sua cabeça está na direção contrária em relação a você de pé na Inglaterra. Nossos cérebros não estão equipados para lidar com a idéia de que a gravidade puxa para o centro da Terra. E as pessoas pensam o para baixo como algo absoluto em vez de algo em relação ao centro da Terra.
Então precisamos de algum tempo para lidar com as descobertas científicas?
É uma questão interessante. Meu exemplo da Austrália sugere que preci-samos de séculos.
Se a sua teoria dos memes (termo cunhado por Dawkins, significando que idéias, comportamentos ou estilos se espalham por replicação de uma pessoa para outra) estiver correta, as pessoas entenderão.
A Teoria Quântica já tem setenta ou oitenta anos, e as pessoas ainda não a entendem.
O senhor afirma que o principal interesse pelos memes é o fato de haver, no mínimo, a possibilidade teórica de uma real seleção natural darwiniana entre eles, similar à que acontece com os genes. O senhor vê essa possibilidade como real ou ela é somente um exercício acadêmico?
Acho que a chance é de cinqüenta por cento. Quando sugeri pela primeira vez a palavra memes, fiz isso como uma brincadeira. Com o passar do tempo, outros, especialmente Daniel Dannett e Susan Blackmore, avançaram com a idéia, e acho que eles acreditam que os memes são importantes na formação da mente humana e na evolução. Eu acho os argumentos deles muito con-vincentes, mas, no momento, estou sentado enquanto olho outros avançarem com a idéia.
O senhor afirma que muitos críticos não dão atenção a uma questão importante de seu livro O Gene Egoísta: o fato de que os genes, embora de maneira totalmente egoísta, formam ao mesmo tempo cartéis de cooperação entre si. Como um gene pode ser egoísta e não-egoísta ao mesmo tempo?
Os genes que agem no mundo são aqueles que realmente ficam mais numerosos. Esses são os genes egoístas no sentido estrito. Mas o ambiente onde eles fazem isso é dominado por outros genes. Conseqüentemente, os genes que se relacionam bem com outros genes são aqueles que cooperam melhor, aqueles que egoisticamente se saem melhor.
O senhor chamou a Teoria do Equilíbrio Pontuado, de Stephen Jay Gould, de “má ciência poética”. Ela é também má ciência?
Não chamaria a teoria de má ciência nem de má ciência poética. O que eu disse é que, na forma que Jay Gould a usa, com a sua linguagem, ele confunde as pessoas entre pelo menos três teorias. Primeiro, gradualismo rápido, a idéia de que a evolução avança, algumas vezes, muito rápido, mas ainda leva dez mil anos para espécies aparecerem. Isso é tão rápido para o registro fóssil que parece instantâneo. Esse é o verdadeiro equilíbrio pontuado. Ela é confundida com a macromutação, que é uma simples mutação pela qual um filho pertence a uma espécie diferente da de seus pais. Essa é outra coisa cientificamente válida que pode acontecer e é diferente do verdadeiro equilíbrio pontuado. Ela é também confundida com uma terceira teoria: extinções em massa. Quando os dinos-sauros foram varridos da Terra e os mamíferos apareceram em seu lugar, houve uma grande e repentina mudança na evolução. Muitas pessoas confundem isso com equilíbrio pontuado. Temos aqui ao menos três teorias totalmente separadas, não conectadas, tipos de saltos na evolução. É má ciência poética ligar essas três teorias somente porque elas têm algo superficial em comum. Foi isso o que quis dizer com “má ciência poética”, mas cada uma delas poderia ser boa ciência.
Por que o senhor disse “poderia ser boa ciência”?
Porque não acredito, por exemplo, que a macromutação vá ser muito importante, mas é uma teoria interessante e, se você achar evidências, ela ainda poderá se transformar em uma boa teoria.
*[Texto extraído do livro Homens de Ciência de Alessandro Greco, Editora Conrad, 2001, páginas 146 a 151]














