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Entrevista: Richard Dawkins*

Os Versos de um Poeta do Laboratório

 São Paulo, 27 de outubro de 2000

Paixão e ódio são os dois sentimentos que o biólogo evolucionista Richard Dawkins, nascido em Nairóbi em 1941, tem despertado em sua carreira científica e de divulgador da ciência. Alguns o consideram um darwinista extremado, de visão reducionista intransigente e dogmática, outros, um defensor da ciência que não tolera falta de rigor no pensamento alheio – a teoria do equilíbrio pontuado do também biólogo evolucionista americano Stephen Jay Gould é um de seus alvos mais conhecidos. Na literatura científica também polemizou com seu primeiro livro, o best seller O Gene Egoísta (de 1976, reeditado pela Itatiaia em 1997), ao propor que cada gene luta pela sua sobrevivência e não em favor do organismo. Seu último livro, Desvendando o Arco-Íris (Companhia das Le­tras, 2000), acaba de sair no Brasil. Em entrevista de sua sala na Universidade de Oxford, Inglaterra, Dawkins fala da relação entre poesia e ciência (o tema principal do livro), das limitações da ciência, da pseudociência e da teoria do equilíbrio pontuado de Gould.

O senhor inicia o seu livro dizendo que vamos todos morrer, e isso nos faz sortudos, pois a maioria das pessoas nunca vai morrer, já que nunca nascerá. Por que é tão difícil nascer?

Não é difícil nascer. É como ganhar na loteria. Alguém tem de ser o vence-dor. Somos todos vencedores da loteria por definição, pois estamos aqui.

Para o senhor a ciência inspira a poesia?

Muitos poetas, durante muito tempo, não perceberam a rica fonte de inspi­ração oferecida pela ciência. Cientistas transformam o modo como pensamos o universo. Não é o universo sem palavras um tema que vale a pena? Por que um poeta deve celebrar somente pessoas e não o lento movimento das forças naturais que as fazem? (John) Keats reclamou que Newton destruiu a poesia do arco-íris ao explicá-lo. De forma geral, para um jovem poeta romântico, a ciência era a estraga-prazer. Mas mistérios não perdem sua poesia quando resolvidos. Pelo contrário, a solução freqüentemente se mostra mais bonita que o problema e, de qualquer forma, quando você resolve um mistério, cria outro. Afirmar que a ciência inspira a poesia é um dos propósitos desse livro.

Mas ciência é arte?

Quando contemplo galáxias, Teoria Quântica, evolução ou tempo geológico acho que sou movido de uma forma que um poeta iria reconhecer. Isso não quer dizer que eu escreva poesia. Não sou capaz, mas acho que a grande ciência é muito semelhante à grande arte. E será mais apreciada se mais pessoas a virem como poesia, arte ou música.

O senhor diz que todas as nossas percepções do mundo são um tipo de realidade virtual restrita, construída dentro do cérebro. Se vivemos em um mundo de realidade virtual, como podemos, como cientistas, estudar o mundo real?

Acho que a ênfase deveria ser dada à palavra restrita. Na sua questão há um tipo de realidade virtual restrita construída no cérebro. Essa restrição é muito importante, pois é restrita a um sonho constante vindo do mundo real. Não é que vivemos em um mundo de fantasia construído totalmente pela imaginação. Ele é construído, regulado, modificado pelas informações vindas dos sentidos. Existe uma relação entre a realidade lá fora e a nossa. Foi sugerido que esse conceito é um tipo de hipótese científica. Quando olho e vejo o que penso ser uma árvore do lado de fora da minha janela, construo uma realidade virtual da árvore na minha cabeça. O que é uma hipótese de que ela é uma árvore, mas como toda boa hipótese científica ela é constantemente testada. Essas informações estão vindo a todo momento dos meus olhos. Se a hipótese da árvore estiver errada, meu cérebro vai rejeitá-la e não mais a verei como uma árvore.

Os governos fazem leis para proteger seus cidadãos contra produtos que dizem fazer mais do que fazem, mas toleram a pseudociência. No Brasil, por exemplo, nos últimos dias do ano astrólogos dizem o que espera o país no ano seguinte. Como o senhor vê essa incongruência?

Gostaria de ver o governo fazer isso. Podemos ver esse tipo de atitude ainda mais claramente com remédios. O fabricante não pode dizer que o remédio vai curar dor de cabeça a não ser que isso seja provado. Mas no caso de um remédio homeopático ou outro não-ortodoxo, o fabricante pode alegar qualquer coisa. É competição injusta, pois quando as pessoas vão à farmácia comprar pílulas para dor de cabeça, elas ficam frente a frente com dois tipos de pílulas. Gostaria de ver isso parar, de ver leis nas quais todos os remédios fossem submetidos aos mesmos procedimentos. Mas suspeito que os homeopáticos não passariam no teste duplo cego (em que se dá para metade de um grupo o medicamento a ser testado, enquanto a outra metade toma placebo, sem que nenhum dos grupos saiba quem tomou o quê).

O senhor é o primeiro Professor Charles Simonyi para o Entendimento Público da Ciên­cia de Oxford (Professor for the Public Understanding of Science) e tem dado palestras em todo o mundo sobre ciência. Como está o nível de conhecimento científico das pes­soas?

Suponho que dependa do país. Nunca visitei o Brasil, para minha tristeza. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há muito entendimento errôneo. Pesquisas feitas na Inglaterra mostram que grande parcela da população acredita que o Sol gira em torno da Terra, que os humanos viveram na mesma época dos dinossauros, que antibióticos podem matar vírus. Algo como trinta por cento ou mais da população acredita em conceitos absolutamente errados.

Mas por que é tão difícil entender a ciência?

Não é somente dificuldade. Há também uma grande inabilidade por parte das pessoas em lidar com probabilidades. A grande preocupação dos artigos sobre ciência na Inglaterra é o risco. As pessoas se preocupam com os orga-nismos geneticamente modificados que elas pensam que podem contaminá-las. Ou sobre alguma doença que pode vir do oeste da África e contaminar todos os Estados Unidos. Mas elas não percebem que fumar cigarro é um risco muito maior. Acredito que as pessoas não foram ensinadas a pensar sobre probabi­lidades.

A visão cética do mundo tem sido criticada como um tipo de dogmatismo. Como o senhor vê isso?

Existe esse perigo e devemos estar atentos a ele. O importante é não rejeitar automaticamente nenhuma idéia nova, mas examinar crítica e cuidadosamente as evidências. É verdade que muitas das mais importantes idéias modernas começaram como idéias não-ortodoxas. Isso leva, conseqüentemente, à idéia errônea de que todas as idéias vão um dia se mostrar corretas. A grande dificul­dade é distinguir qual. E a única forma de fazer isso é olhar as evidências. Eu nunca rejeitaria automaticamente uma idéia nova.

Desde Newton, as leis da ciência têm nos mostrado que a natureza se comporta de forma contra-intuitiva. O senhor acha que a mente humana está preparada para lidar com o conhecimento científico como a física quântica?

A física quântica é muito difícil para a mente humana. Não somente para pessoas não treinadas em física como eu, mas também físicos teóricos do primeiro time acham difícil visualizar o que acontece no mundo quântico. Eles podem visualizá-lo matematicamente, todavia muitos acham difícil fazê-lo ter sentido. Há limitações que podem ser entendidas nos termos da discussão que estávamos tendo, limitações nos tipos de modelos de construções do mundo que a mente é capaz de fazer. A mente pode construir somente um número limitado de modelos em relação aos modelos que teve de construir no nosso passado ancestral. Coisas que a teoria quântica demanda, como uma partícula estar em dois lugares ao mesmo tempo, não é algo que nosso cérebro seja capaz de imaginar.

Mas e as outras áreas da ciência? O senhor acha que o nosso cérebro é equipado para lidar com elas?

Acho que a Teoria da Relatividade não é tão difícil quanto a Teoria Quân­tica. Mas as pessoas têm dificuldade em entender que a Terra se move, pois ela parece estar parada. Têm dificuldade em entender que, se você está de pé na Austrália, sua cabeça está na direção contrária em relação a você de pé na Inglaterra. Nossos cérebros não estão equipados para lidar com a idéia de que a gravidade puxa para o centro da Terra. E as pessoas pensam o para baixo como algo absoluto em vez de algo em relação ao centro da Terra.

Então precisamos de algum tempo para lidar com as descobertas científicas?

É uma questão interessante. Meu exemplo da Austrália sugere que preci-samos de séculos.

Se a sua teoria dos memes (termo cunhado por Dawkins, significando que idéias, com­portamentos ou estilos se espalham por replicação de uma pessoa para outra) estiver correta, as pessoas entenderão.

A Teoria Quântica já tem setenta ou oitenta anos, e as pessoas ainda não a entendem.

O senhor afirma que o principal interesse pelos memes é o fato de haver, no mínimo, a possibilidade teórica de uma real seleção natural darwiniana entre eles, similar à que acontece com os genes. O senhor vê essa possibilidade como real ou ela é somente um exercício acadêmico?

Acho que a chance é de cinqüenta por cento. Quando sugeri pela primeira vez a palavra memes, fiz isso como uma brincadeira. Com o passar do tempo, outros, especialmente Daniel Dannett e Susan Blackmore, avançaram com a idéia, e acho que eles acreditam que os memes são importantes na formação da mente humana e na evolução. Eu acho os argumentos deles muito con-vincentes, mas, no momento, estou sentado enquanto olho outros avançarem com a idéia.

O senhor afirma que muitos críticos não dão atenção a uma questão importante de seu livro O Gene Egoísta: o fato de que os genes, embora de maneira totalmente egoísta, formam ao mesmo tempo cartéis de cooperação entre si. Como um gene pode ser egoísta e não-egoísta ao mesmo tempo?

Os genes que agem no mundo são aqueles que realmente ficam mais nu­merosos. Esses são os genes egoístas no sentido estrito. Mas o ambiente onde eles fazem isso é dominado por outros genes. Conseqüentemente, os genes que se relacionam bem com outros genes são aqueles que cooperam melhor, aqueles que egoisticamente se saem melhor.

O senhor chamou a Teoria do Equilíbrio Pontuado, de Stephen Jay Gould, de “má ciência poética”. Ela é também má ciência?

Não chamaria a teoria de má ciência nem de má ciência poética. O que eu disse é que, na forma que Jay Gould a usa, com a sua linguagem, ele confunde as pessoas entre pelo menos três teorias. Primeiro, gradualismo rápido, a idéia de que a evolução avança, algumas vezes, muito rápido, mas ainda leva dez mil anos para espécies aparecerem. Isso é tão rápido para o registro fóssil que parece instantâneo. Esse é o verdadeiro equilíbrio pontuado. Ela é confundida com a macromutação, que é uma simples mutação pela qual um filho pertence a uma espécie diferente da de seus pais. Essa é outra coisa cientificamente válida que pode acontecer e é diferente do verdadeiro equilíbrio pontuado. Ela é também confundida com uma terceira teoria: extinções em massa. Quando os dinos-sauros foram varridos da Terra e os mamíferos apareceram em seu lugar, houve uma grande e repentina mudança na evolução. Muitas pessoas confundem isso com equilíbrio pontuado. Temos aqui ao menos três teo­rias totalmente separadas, não conectadas, tipos de saltos na evolução. É má ciência poética ligar essas três teorias somente porque elas têm algo superficial em comum. Foi isso o que quis dizer com “má ciência poética”, mas cada uma delas poderia ser boa ciência.

 Por que o senhor disse “poderia ser boa ciência”?

Porque não acredito, por exemplo, que a macromutação vá ser muito im­portante, mas é uma teoria interessante e, se você achar evidências, ela ainda poderá se transformar em uma boa teoria.

  

*[Texto extraído do livro Homens de Ciência de Alessandro Greco, Editora Conrad, 2001, páginas 146 a 151]

Nota sobre o Santo Ateísmo

Olá queridos leitores, quero informar-lhes que está muito difícil manter uma periodicidade inferior a um ou dois posts por mês, são tantas as atribuições da vida universitária, mas enfim.

Gostaria que me dessem mais sugestões para abordar aqui, pois com a correria da faculdade acabo sem pensar em idéias para postar, e como tenho outro blog pra manter (Cooltural) fica mais difícil ainda. Quero avisar as pessoas que seguem o blog no twitter que nem para isso estou tendo muito tempo, sendo que estou usando ele apenas para avisar sobre uma nova postagem no blog, caso queiram saber sobre minha vida e as novidades no outro blog é só seguirem meu twitter pessoal (@ademarjunior).

Sobre o comentários quero dizer que resolvi responder a todos os comentários do Santo Ateísmo, assim como faço com o Cooltural, então se você já comentou por aqui procure seu comentário que irei respondê-lo, caso não esteja respondido aguarde, pois é apenas uma questão de tempo.

 

Agradeço a todos as visitas, comentários e opiniões.

Abraços

O ateísmo é constantemente visto na literatura seja ele explicito ou implícito, como personagem principal ou secundário, de uma forma ou de outra ele está lá, impregnado. Mas o ateísmo em literatura pode ser considerado uma estética ou gênero? Quando se pensa na quantidade de autores ateus ou livros que falam sobre ateísmo dava até para acrescentar essa nova categoria, mas o ateísmo muito menos se insere na estética religiosa, simplesmente por não ser uma religião. O mais correto seria denominar o ateísmo como um tema literário, assim como é o amor, a homossexualidade ou a política.

São muitos os nomes de livros, autores e personagens de caráter ateístico. Entre alguns autores pode-se citar desde o fantasioso Philip Pullman, passando pelos filósofos Nietzsche e Schopenhauer, até os contemporâneos Richard Dawkins e José Saramago. Sem contar os livros de religiosos que abordam, mesmo que pejorativamente, o ateísmo, como é o caso do livro Não tenho fé suficiente para ser ateu dos cristãos Norman Geisler & Frank Turek.

É possível ainda listar inúmeros personagens ateus que fazem partes de diversos romances, seja no papel principal ou secundário. Só para citar alguns temos, a terrorista Dahlia Iyad do livro Domingo Negro do americano Thomas Harris, a arqueóloga Tess Chaykin no livro O Último Templário de Raymond Khouri, e ainda o agnóstico Robert Langdon dos livros O Código Da Vinci e Anjos e Demônios do também americano Dan Brown. Isso sem mencionar os vários personagens ateus do russo Fiódor Dostoievski, que apesar de ter sido um cristão fervoroso usava o ateísmo para caracterizar vários de seus personagens, ainda que usasse isso para determinar o caráter dos personagens como escórias sociais, eram sempre os assassinos, homicidas, adúlteros e por ai vai.

O ateísmo está quase sempre presente, seja no autor que usa ou não o tema em seus livros, pode ser citado aqui o brasileiro Machado de Assis; seja como tema principal do livro, podendo ser visto positivamente ou não; ou, seja nos personagens que podem ser tanto os mocinhos como os vilões. Vale destacar aqui a trilogia de Phillip Pullman, As Fronteiras do Universo (A Bússola Dourada, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar) que usa a fantasia para escrever de forma metafórica um ateísmo pra crianças, segundo alguns puritanos Pullman é um exagerado e sensacionalista por escrever sobre tal coisa para crianças, mas há quem defenda que o contrário também é valido, não se deve impor religião para crianças.

Em suma, sendo estética, gênero ou tema, o que importa é que o assunto é bem presente na literatura podendo assim, permitir uma análise sobre a opinião de cada autor e como cada um ver o ateísmo, claro que não é algo massificado, o ateísmo não determina a personalidade dos personagens, autores ou dos próprios leitores, mas proporciona uma reflexão sobre a aceitação e de como essa opção pela descrença é normal e existe a muito tempo, nos mais diversos povos.

Estive conversando com um amigo religioso recentemente e durante nosso papo acabamos por enveredar para o âmbito religioso, e quando ele perguntou sobre minha visão religiosa ficou chocado quando lhe expus tudo em que acreditava e deixava de acreditar. Segundo ele sua religião não aceitava aquele tipo de pensamento e não permitia que ele compactuasse com minha visão.

Ele disse: “Nós não aceitamos isso!”. Eu lhe expliquei que a palavra nós é muito complicada de se usar, pois afirma algo generalizado do qual não se pode ter certeza. Porém ele refutou a idéia dizendo que ele falava em nome da religião. Eu lhe indaguei qual era sua opinião sobre isso, o que ELE achava sobre esse tipo de coisa. Como resposta eu ouvir que quando se resolve seguir uma determinada religião deve-se segui-la sem questionamentos, sem opiniões pessoais, a religião nos dá diretrizes para viver que não podem ser questionadas.

Eu fiquei perplexo com tudo isso. É incrível como a religião pode cegar (em alguns casos). Abdicar do direito de pensar por si, para acatar um pensamento preconceituoso premeditado já imposto por outrem é algo extremamente ilusório e improdutivo. Como disse uma leitora desse blog em seu comentário no post anterior, não é nada saudável deixar que a religião oprima e subjugue a capacidade que cada um tem de discernir.

Não poder escolher, mesmo que de forma indireta como nesse caso, os próprios amigos é algo doentio. Digo isso porque esse papo fez um amigo se afastar, mesmo que ele tente não transparecer o motivo, ficou claro que a religião o incitou de forma preconceituosa. Algumas igrejas deviam lidar com seus fiéis, principalmente os mais jovens, incitando os ao amor e a aceitação da diferença do próximo.

Se atentarmos bem é nas instituições, nesse caso as igrejas, que pregam o amor, o foco com maior quantidade de pessoas preconceituosas. Preconceito explícito contra ateus, homossexuais, doentes (em algumas denominações), fiéis de outras religiões, e ainda com a elitização de muitas igrejas capitalistas, até com classes sociais se ver preconceito explícito. Isso é abominável.

Ironias a parte, algumas religiões precisam repensar (novamente) sua diretrizes. Digo em entrelinha novamente porque nenhuma religião preserva sua forma original, todas foram se adaptando e se desmembrando com passar do tempo. E isso só comprova o fato que a religião é algo criado pelo homem e que muda facilmente de essência de acordo com a necessidade do seu criador.

Modelando Deuses

Modelando

“Nós modelamos deuses que nos modelam”
Edgar Morin

A necessidade do homem de se adaptar aos mais diversos padrões tem lhe sido útil, desde os tempos mais remotos. Essa frase (acima citada) do francês Edgar Morin traduz um pouco disso. Desde que o homem atribuiu o inexplicável ao sobrenatural houve a necessidade de que esse sobrenatural tivesse um governador, que seria o criador de tudo e devia ser cultuado a risca, sendo esse criador diferente em cada cultura. Porém devido ao fato de que quando o homem criou a religião, a humanidade já era diversificada, isso fez com que surgissem diversos deuses diferentes, cada um adequado a cultura em que seus idealizadores viviam.

Essa modelagem de deuses, não só contribuiu para a disseminação das religiões, como também fez com que, através das pregações, pessoas também fossem modeladas, para viver de acordo com os padrões do suposto deus.

Ao escrever a frase acima em seu livro “Cultura e Barbárie Européias” Edgar Morin acerta, quando a menciona para ilustrar sua afirmação de que a religião é uma das principais fontes de barbáries na sociedade moderna, sem contar que seu surgimento e seu modelo contribuíram para constituir o presente em que vivemos.

Nada de anormal em o homem se adaptar a sua própria criação, o anormal é ele não vê isso. Um ponto importante é que essa frase de Morin se aplica não apenas à religião e seus respectivos deuses, mas também a diversos aspectos de nossa vida. Por exemplo, o ser humano modela um padrão de beleza para que as pessoas se “Moldem” com ele, as pessoas criam padrões para modelarem suas atitudes e personalidades, a moda é outro exemplo claro de um deus cultural contemporâneo, as pessoas criam moda e fazem com que as pessoas se moldem e se adéqüem a ela.

Não há como afirmar se é saudável ou não seguir padrões ou fugir deles, o que é fato é que a humanidade está sempre se moldando, e à medida que vão aparecendo coisas novas, e sempre aparecem, as coisas vão complicando, a cada dia surgem novos deuses e pessoas que se adaptam a eles, isso contribui para a diversificação da espécie humana, o que dificulta a utopia daqueles grupos que sonham com a homogeneidade da sociedade mundial.

igreja e dinheiro

Olhando para todos os acontecimentos que envolvem os escândalos religiosos, que pudemos acompanhar pela televisão no mês de agosto, chegamos a um ponto que movimenta todos os fatos, o dinheiro. Para muitos o cristianismo é um segmento religioso que caminha sobre a fé, porém a base que serve de apoio para tal movimento é o dinheiro, seja ela em maior ou menor grau, dependendo da subdivisão do cristianismo.

De todas as denominações a Igreja Universal do Reino de Deus (igreja neopentecostal criada pelo bispo Edir Macedo) é aquela em que o dinheiro é vista como o foco principal de movimentação das coisas que “sobem e descem”. Se você pode pagar Deus ouvirá sua petição, se não poder entra na fila até que possa, e quanto mais você “doa” mais direito você tem para pedir mais. É assim que funciona.

Enquanto muitas outras denominações se contentam com o dízimo (uma décima parte do que você ganha) e as ofertas, que segundo eles é apenas devolver uma parte do que Deus nos dá (se é pra devolver porque ele não fica com ela? Dizem que é pra nos testar, mas qual o sentido desse joguinho?), na igreja Universal, isso não é bem assim, além do dízimo e das ofertas, ainda é exigido mais se você quiser ser atendido.

Vendo o testemunho de vários ex-membros notamos que há certa concordância entre os diversos discursos. Sem contar com a confirmação dos ex-pastores que relataram ter passado por treinamentos nos quais eram obrigados a persuadir os fiéis a doarem cada vez vais, um deles disse que foi expulso por só conseguir 120 mil quando a meta era 150 mil por mês. Ainda como confirmação, pudemos ver o vídeo mostrando o funcionamento de um culto que foi divulgado na internet.

Para defesa eles usaram o relato da pequena porcentagem de fiéis que têm uma boa vida, aqueles que ainda não doaram tudo pra igreja, mas como sabemos que com dinheiro é tudo uma questão de saber administrar, não é apenas os fiéis dessa denominação que conseguem crescer. Se Deus é o dono do dinheiro e se só se enriquece quando damos uma parte ou tudo (no caso da igreja Universal) a ele, o que dizer dos ateus milionários? Ou simplesmente daqueles que têm o suficiente para viver bem a vida inteira (que é a maioria)?

Portanto o dinheiro ainda é o movimentador de tudo, não apenas das religiões, então sábio aquele que sabe administrá-lo. Às vezes uma poupança é mais segura e lucrativa que os cofres de uma igreja. Salvo que as religiões são importantes e que precisam ser de certa forma, sustentadas por quem as freqüenta, porém não há necessidade de extravagância se o deus que eles cultuam é simples, e fazia milagres quando as pregações eram feitas embaixo de árvores.

acampamentoMonitoratutores

A Grã-Bretanha está oferecendo a primeira colônia de férias para ateus, jovens entre sete e 17 anos. Em oposição aos tradicionais acampamentos religiosos o pessoal do acampamento Camp Quest promovem uma “alternativa sem Deus”. Os participantes aprendem que o comportamento ético não depende de crença religiosa e doutrinas, que essas são às vezes um obstáculo para o comportamento moral e ético, que pessoas sem religião também são boas e totalmente capazes de viver uma vida feliz e cheia de significado.

No acampamento os jovens praticam atividades, físicas e mentais, entre essas últimas está uma chamada “Unicórnio invisível”, que consiste na busca a dois unicórnios invisíveis.

Os instrutores dizem aos jovens que os unicórnios não podem ser vistos, provados, cheirados ou tocados. Eles também não conseguem fugir do acampamento e não se alimentam de nada. A única prova da sua existência, segundo os instrutores, está contida em um livro muito antigo repassado por “inúmeras gerações”. Um prêmio de 10 libras (cerca de R$ 30) é oferecido a qualquer criança que conseguir provar que os unicórnios não existem.

Apesar de muitos se manisfetarem contra esse exercício e o acampamento em geral, tal atividade proporciona o jovem o questionamento religioso e lhe faz pensar sobre o ônus da prova. Em si o acampamento não tem como objetivo converter e alienar os jovens, mas fazê-los refletir e escolher, enquanto jovens, a que caminho seguir: o da crença (qual delas?) ou a descrença.

 

 

Paradise Now, um filme de Hany Abu-Assad.

Paradise Now, um filme de Hany Abu-Assad.

Depois de um longo tempo sem postar nada no blog, retorno com essa indicação de um filme que vi recentemente.

“Paradise Now” acompanha as últimas horas da vida dos palestinos Khaled e Said, amigos de infância que são recrutados para realizar um atentado suicida em Tel Avi. Levados à fronteira com bombas presas ao corpo eles acabam se perdendo um do outro. Separados, eles têm de enfrentar seu destino e suas próprias convicções. Um filme contundente e polêmico, que mostra uma realidade nunca antes vista no cinema.

Leva-nos a refletir como é a concepção religiosa e política dos personagens, o que não deixa de ser um retrato verossímil da vida real. O que leva tais pessoas a abdicarem de suas vidas em prol de algo do qual não têm certeza? Que deus cruel é esse que pede a vida de seus fiéis para resolver problemas que poderiam ser resolvidos de outras formas?

O filme é excelente, sem muita ação, porém com diálogos excepcionais, que superam as expectativas de quem espera algo grandioso. Merecidamente esse filme de 2006 recebeu inumeros prêmios, inclusive indicação ao Oscar (o que já é grande coisa).

Título Original : Paradise Now
Diretor : Hany Abu-assad
Duração : Aprox. 88 Minutos
Lançamento : 2006
Restrição : Recomendado Maiores de 14 anos

Prêmios e indicações

Prêmios
Festival de Berlim

Anistia Internacional
Blue Angel
Prêmio do Júri Leitor do Berliner Morgenpost

Golden Globe Awards

Melhor filme em língua estrangeira (árabe)

Independent Spirit Awards

Melhor filme estrangeiro

National Board of Review

Melhor filme em língua estrangeir (árabe)

Indicações
Academy Awards (Oscars)

Melhor filme estrangeiro (Autoridade Nacional Palestiniana)

Festival de Berlim

Urso de Ouro

Competidores escolherão entre quatro religiões ou podem escolher continuar ateus

Competidores escolherão entre quatro religiões ou podem escolher continuar ateus

Um reality show da Turquia mostrará sacerdotes de quatro religiões tentando converter ateus convictos e premiará aqueles que passarem a ter uma religião com uma viagem de peregrinação.

O novo programa, chamado Tövbekarlar Yarisiyor (algo como “Penitentes Competem”, em tradução livre) coloca juntos um imã, um rabino, um monge budista e um sacerdote da Igreja Ortodoxa Grega que tentarão converter dez competidores.

Os dez competidores ateus foram avaliados cuidadosamente por uma equipe de teólogos para garantir que não tenham nenhuma fé.

A cada episódio, o imã, o rabino, o sacerdote e o monge tentarão convencer os competidores ateus a respeito dos méritos de suas religiões.

De acordo com o jornal turco Hurriyet, os produtores do programa reconhecem que há uma grande chance de que nenhum dos ateus seja convertido.

Mas, se alguém for verdadeiramente convertido a uma religião, será enviado a uma peregrinação. Para os convertidos ao islamismo, a viagem será para Meca, budistas irão para o Tibete e os convertidos ao Judaísmo ou ao Cristianismo, para Jerusalém.

As câmeras do canal de televisão seguirão os competidores vencedores nestas peregrinações.

“Eles não podem encarar isso como uma simples viagem, mas como uma experiência religiosa”, afirmou ao jornal Hurriyet Ahmet Ozdemir, vice-diretor do Kanal T, canal de televisão que produz o programa.

Propaganda e ‘’serenidade”

As propagandas para o programa prometem que será dado ao convertido “o maior prêmio de todos; nós representamos a crença em Deus. Acredite, arrependa-se, Deus irá perdoar”.

Mas os produtores afirmam que o programa também ajudará os competidores a “encontrar a serenidade”, além de aumentar o conhecimento sobre as religiões.

O programa já gerou várias reações na Turquia, um país de maioria muçulmana. Alguns afirmam que será bom para as relações entre as religiões e outros disseram que este tipo de discussão “não é apropriado” para a televisão.

Ozdemir, por sua vez, afirmou que quando as pessoas ouviram falar do programa pela primeira vez, “foi difícil para elas compreenderem sobre o que era”, mas muitos agora estão “esperando impacientemente” pelo lançamento do programa.

“As pessoas são livres para acreditarem do que quiserem. Nosso programa não vai decidir”, acrescentou.

Fonte: BBC Brasil

Conhecer o que negamos

filosofia

Freqüentemente sou perguntado sobre o porquê do meu interesse por religiões, se digo que não acredito em deus. Simplesmente digo que preciso conhecer aquilo que nego. Particularmente eu acho isso algo essencial na formação ateística de cada um. Não posso dizer que deuses não existem, sem antes estudar e refletir sobre eles, preciso conhecer suas religiões, saber o que leva as pessoas a acreditarem neles.

Acredito que para se formular uma opinião precisa, deve-se conhecer a fundo o objeto estudado. Para mim foi necessário ler a Bíblia toda duas vezes, para assim identificar no texto deles o que não me faz acreditar no deus cristão. E assim foi para com as outras religiões (pelo menos as mais difundidas), tive que estudá-las, ultimamente estive estudando a logosofia (que pretendo abordar aqui futuramente), e achei que trata-se de um movimento intrigante, porém fútil como muitos outros.

Acho de extrema importância que nós tenhamos uma boa base teórica para lidar com diversos assuntos e discussões. É indispensável a cada ateu o apreço por filosofia (entre outros assuntos, como ciência, literatura e religião), não apenas pela filosofia de filósofos ateus, como Nietzsche, Sartre ou Schopenhauer, mas também pela filosofia dos religiosos, é preciso ler Kant, Marx, Spinoza, São Tomás de Aquino, entre outros. Digo que é preciso ouvir o discurso de um religioso até o fim e não se abalar com ele, para ser um ateu convicto (rsrs).

Convivendo com pessoas religiosas fico a refletir sobre como uma pessoa é capaz de deixar de lado a razão para se basear pela fé. Porém não me sinto no direito de interferir na crença dessas pessoas, o que posso fazer é dá minha opinião de forma que não venha ferir sua crença. O convencimento vem pelo diálogo saudável e não pela agressão de palavras.

Por fim exorto a todos os companheiros ateus, a buscarem o motivo da nossa descrença, a se alimentarem de argumentos bons, a difundirem, de forma apaziguada, a verdade. Leiam, estudem, reflitam, e discutam, é através da discussão que nasce o aperfeiçoamento das idéias e as melhores possibilidades.

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